PUTIN SEM MEDVEDEV

A bomba detonada por Veja esta semana é daquelas que causam estragos amplos e duradouros. Talvez em outra ocasião o incidente passasse quase despercebido, com a tropa de choque petista se encarregando de espalhar a cortina de fumaça com a qual se acostumaram a encobrir todas as lambanças perpetradas. Agora, entretanto, a coisa é diferente: Lula não está mais no poder e a opinião pública está em estado de alerta graças à CPI que ele mesmo ajudou a construir.

A tentativa de cooptação de Gilmar Mendes – ministro nomeado por Fernando Henrique Cardoso – dá a cogitar que ela tenha sido precedida de outras abordagens a ministros, digamos, mais “chegados”. Toffoli, por exemplo, tem voto tão valioso quanto o de Mendes. Será que Lula já não teria ido procurar por ele?  E Fux? E Levandowski?

Qual o papel de Nelson Jobim nesse enredo? O mesmo que Lula teria destinado a Sepúlveda Pertence, que, segundo a mesma reportagem, seria o encarregado de “convencer” a Ministra Carmen Lúcia? Acima de tudo, o que é que um cara como Gilmar Mendes, “p…  velha” da advocacia, foi fazer numa reunião com Jobim e Lula, sabedor que era do desespero dos petistas com a aproximação da “hora da verdade” no caso do Mensalão? Será que ele achava que tudo se resumiria a “tomar uns bons drinque” ?

Algo não está se enquadrando, embora a história como um todo seja totalmente plausível. Só posso imaginar que, justamente por ser “p… velha”, Mendes tenha aceitado o convite apenas para ouvir, de modo formal e de viva voz, o convite obsceno feito por Lula. Assim, usaria sua posição para dar mais ênfase à denúncia de um processo que possivelmente já viria se desenvolvendo,  com resultados até então animadores.

Seja como for, a iniciativa de Lula está completamente abortada. Os próprios ministros que eventualmente já tenham sido abordados vão ter de ser cautelosos, pois sabem que a sociedade os observa de perto. A lâmina da guilhotina vai se aproximando cada vez mais do pescoço de José Dirceu e sua gangue, com repercussões sequer imagináveis sobre a teia de corrupção que foi montada no país a partir de 2002.

As doações ostensivas de empreiteiras ao PT dão uma medida bastante clara do que deve estar correndo por baixo dos panos na administração pública brasileira. A CPI do Cachoeira, que Lula montou para encostar na parede seu desafeto Marconi Perillo e atrapalhar o andamento do Mensalão, pode acabar se voltando contra seus criadores, pois há indícios cada vez mais sólidos de que por trás da expansão incompreensível da Delta estão não somente o contraventor Cachoeira, mas especialmente o “Capo” José Dirceu. Caso seja conduzida com um mínimo de lisura, a CPMI pode contribuir para entender melhor o esquema que, desde tempos imemoriais,  une empreiteiras e políticos no poder.

O melhor de todo esse episódio é que Lula, pela primeira vez, não tem o controle da máquina da propaganda estatal para mascarar seus malfeitos. Desta vez a opinião pública o pegou com as calças na mão. Ponto para Dilma Rousseff, que deve ter respirado aliviada quando Lula teve de tirar férias forçadas e afastou-se do seu ouvido. Dilma aproveitou esses meses para se consolidar e vem deixando cada vez mais claro que não quer ser o Medvedev desse Putin caboclo.

Realmente 2012 não vem sendo um grande ano para o Molusco. O julgamento do Mensalão se aproxima, a CPI está se tornando um tiro pela culatra e até o muppet que ele designou futuro prefeito de São Paulo escorrega na sua própria insignificância. Desta vez,  a simples chancela do ex-presidente não está sendo suficiente para fazer decolar a candidatura de Fernando Haddad. Lula voltou da doença e percebeu que perdeu espaço. Está tentando recuperá-lo, mas vem errando a mão e, a cada movimento que faz, mais se afunda no lamaçal que ele mesmo criou.

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AMIGO É COISA PRA SE USAR – PARTE II

A fase da montagem, como eu mencionei, foi muito demorada e desgastante. Inicialmente tive muitos problemas com as armações de janelas que eu havia mandado fazer e com os respectivos vidros, que vieram de São Paulo. As molduras das janelas do Puma DKW possuem duas angulações  muito complicadas, difíceis de se ajustar à forma da carroceria. Tive de fazer uns três jogos de vidros de porta e mexer várias vezes nas armações até obter um resultado satisfatório.

Outro problema foram as borrachas, tanto de parabrisas quanto de portas. Houve muita dificuldade em encontrar as mais adequadas, o que só ocorreu depois de várias tentativas. No final, entretanto – após uns seis anos de muito aborrecimento e poucas alegrias -, o carro ficou com ótimo aspecto. O único item que não consegui restaurar a contento foi a tampa do porta-luvas, cujo friso de contorno não consegui obter.

A essa altura minha vida particular havia sofrido algumas mudanças importantes: eu havia me aposentado e mudado para Vila Velha, no Espírito Santo. Cuidar do Puma e dos mais de vinte carros que possuía na ocasião, a maioria em reforma ou por restaurar, tornou-se tarefa impraticável. Resolvi então colocar o Puma DKW entre minhas prioridades de venda, pelo elevado montante de recursos que já havia aplicado em sua recuperação.

O carro, entretanto, tinha um grave defeito: embora aparentemente seu  chassis fosse original, a documentação exibia um número diferente, já que algum proprietário anterior “trepou” no carro a documentação de um Belcar 1963. Para fins de autenticidade esse era um problema de monta, que afetou o interesse da maioria dos colecionadores que conheceram o veículo. Paralelamente, o carro começou a apresentar problemas de injeção que não foram solucionados nem com a troca de sucessivos reparos da bomba de combustível.

Instruído pelos “universitários” da Nação Dekaweana”, pus-me a procurar uma bomba de combustível elétrica que havia equipado veículos da linha Fiat Prêmio carburados, pois essa bomba tem pressão similar à da bomba mecânica original DKW. Tal peça, todavia, era também considerada uma “mosca branca” e levei muitos meses até conseguir adquiri-la.

Nesse meio tempo um cidadão de Portugal viu o anúncio de meu carro no Mercado Livre e informou a um amigo suíço, membro do Auto Union Club daquele país. O interesse foi imediato, mas a negociação foi complicada, pois todos os acertos foram feitos através do cidadão português, já que o interessado suíço não falava nosso idioma.

Enfim, depois de alguns meses, o negócio foi fechado e um despachante internacional foi designado para finalizar a operação. Nessa altura eu havia mandado instalar a recém-adquirida bomba de combustível. Quando, entretanto, foi-se dar partida no carro, o motor já havia travado devido ao longo tempo (uns dois anos) sem funcionamento. Com o negócio já fechado, não vi alternativa senão a de mandar abrir e reformar por completo o motor, tarefa que coube ao Sabonete, veterano mecânico de Brasília. Aprendi então que, ao contrário do que recomenda a música do Milton Nascimento, os carros de mecânica DKW são amigos para se usar: guardá-los parados não faz bem à sua saúde.

Afinal, no início deste ano e depois de muito prejuízo, o Puma DKW mudou de dono. Imagino que já esteja na Suíça e, de certa forma, isso me deixa feliz. Lá a questão da documentação perde relevo. Por outro lado é interessante a possibilidade de um clube europeu exibir em seu acervo um veículo projetado no Brasil numa época em que a Europa via nosso país como um lugar selvagem, desprovido de engenho e  tecnologia. O Puma DKW, apesar de evidentemente inspirado num modelo contemporâneo da Ferrari, tinha personalidade própria e uma beleza que me levava, volta e meia, a contemplá-lo por longo tempo, embevecido.

Jamais cheguei a dirigir meu Puma. Todavia, a alegria de resgatá-lo de sua triste situação, dando-lhe um destino muito mais digno, me satisfez. Quem sabe surgirá, um dia, uma nova oportunidade de restaurar outro exemplar desse maravilhoso carro?

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AMIGO É COISA PRA SE USAR – PARTE I

Para os antigomobilistas a “Comunidade Dekaweana” é uma referência: um grupo de abnegados, sobre os quais já escrevi uma vez, que mantém viva uma marca – a Vemag, que  produzia os veículos DKW no Brasil – 45 anos depois de seu desaparecimento. Para que se tenha uma ideia da união e da capacidade criativa dessa turma, até uma verdadeira “concessionária” DKW-Vemag se encontra em funcionamento no Rio Grande do Sul.

Se esse grupo é um time, seu meio-campo e capitão é sem dúvida o “Seu” Mattos, ou Ma2Tos, como ele gosta de assinar – o “2T” é uma homenagem aos motores de dois tempos que equipavam os DKW. Ele vem me pedindo há tempos que eu conte minha experiência na restauração de um Puma DKW, exemplar muito raro produzido por apenas um ano pela Puma.

Para quem não conhece a história, um resumo: o Puma DKW teve origem nos Malzoni GT criados a partir de uma demanda do departamento de competição da Vemag.  Logo no primeiro ano de existência da Puma – 1967 – a Vemag foi comprada pela Volkswagen, que, no final do ano, tirou os DKW de linha. Com isso a Puma foi obrigada a redesenhar seu esportivo para passar a receber mecânica VW refrigerada a ar a partir de 1968. Menos de 150 Pumas DKW chegaram a ser produzidos e o meu era um deles.

Adquiri esse carro em Paulínia, perto de Campinas, onde ele servia de casa para 3 cães  pitbull que vigiavam uma chácara. Sua traseira estava toda modificada (parecia a do Puma VW 1980) e a frente também havia recebido alterações de monta. A mecânica era do Passat 1.4, não havia parte elétrica nem qualquer acabamento, como vidros, bancos, instrumentos, etc. Enfim, era um perfeito “bagaço”.

Chegando em Brasília a primeira providência foi recuperar-lhe a carroceria, o que só consegui graças à boa vontade de Rubens Santoro, cujo Puma DKW (que hoje pertence ao espólio do saudoso Jorge Amador) foi disponibilizado para a confecção de moldes da frente e da traseira originais. Raspado o veículo, a surpresa agradável foi descobrir que o resto da carroceria do mesmo era totalmente original, ainda no gel azul-piscina característico.

Recuperada e pintada a carroceria, o carro foi parar nas mãos dos irmãos Nascimento & Oswaldo, que trataram da reconstrução mecânica e elétrica. Localizamos um câmbio original, de assoalho, num ferro-velho da periferia de Brasília, adquiri um motor em São Paulo e as demais peças o Nascimento possuía.  Aproveitei a falta dos freios originais para colocar freios a disco e homocinética, evitando assim a pouco confiável cruzeta.

Depois de mais de  dois anos o Puma estava com a parte elétrica pronta e a mecânica no lugar. Aí começou a saga da montagem, realmente um dos pontos mais complicados da restauração. Até que não me faltou disposição nem fôlego financeiro para bancar as elevadas despesas com a compra de um parabrisas (de um lote encomendado pelo Hélio Marques em Niterói), confecção dos relógios do painel (feitos na Tecnopainel de São Paulo), vigia traseiro e bolhas da Aldomar Plásticos, bancos refeitos desde a armação, etc. Sobre os bancos, aliás, uma história tragicômica. Uma noite eu estava na garagem da minha casa conferindo as armações dos bancos, recém-recebidas. Lá pelas tantas, agachado,  fui testar um dos reclinadores:  a mola estava muito tensa e deslocou o encosto do banco (na realidade um cano de ferro), que se chocou com toda força contra meu nariz, espatifando-o e me deixando tão ensanguentado que  não conseguia enxergar. Nada grave, todavia, e para minha sorte uma linda e jovem médica acabou resolvendo a contento o problema no pronto-socorro mais próximo.

Aos poucos fui obtendo itens que hoje são reproduzidos e se encontram com facilidade em Lindoia, mas que na época eram verdadeiras moscas-brancas. Para que se tenha uma ideia, por causa das maçanetas externas, que eram as mesmas do Fissore, acabei comprando um desses carros, que me rendeu mais uma aventura contada num outro post. As lentes das lanternas dianteiras, hoje tão bem reproduzidas, foram encomendadas por mim pela primeira vez em resina a um artesão de São Paulo, o mesmo ocorrendo com suas molduras externas, que foram fundidas na FUNDIPLAC, em Brasília. Os parachoques dianteiros eu comprei de um sujeito que alegava tê-los obtido num antigo estoque da Puma: ambos eram, contudo, do mesmo lado, o que exigiu adaptações. Os traseiros foram feitos a mão também em Brasília.

Ainda há muito o que contar, por isso vou parar por aqui. A segunda parte eu divulgarei num outro post nos próximos dias, aguardem !

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MAIS FLAMENGO

Vamos ser sinceros: tivesse outro nome o ocupante da camisa 10 do Flamengo, já teria sido barrado há tempos. Ronaldinho Gaúcho está se mostrando cada vez mais uma aposta errada da administração de Patrícia Amorim. Quando se constata que um investimento não foi bom e que não tem chance de recuperação, o jeito é realizar as perdas e se desfazer da encrenca. Ronaldinho foi um mau investimento e deve ser descartado o quanto antes, para que não perca totalmente seu valor e sobretudo para que deixe de contaminar negativamente o grupo de atletas profissionais do clube.

É preciso coragem para reconhecer um erro, ainda mais em ano eleitoral: Ronaldinho custa os olhos da cara, trouxe retorno praticamente nulo em termos de receitas e marketing e está comprometendo os ambientes técnico e disciplinar com sua falta de comprometimento. Com o salário pago a esse “chupa-sangue” seria possível ter um time inteiro de ótimo nível (R$ 100 mil por jogador) e um reserva de quebra.

Enquanto Ronaldinho drena as reservas financeiras do clube e as de paciência da torcida, a equipe se ressente de jogadores de qualidade em várias posições. A zaga é um desastre, assim como a lateral-esquerda e o meio de campo, tanto em termos defensivos quanto ofensivos. Wellinton é uma piada – só ele não acha assim – e Magal tem mais conversa do que futebol. Junior Cesar, o ex-titular agora de malas prontas para o Atlético-MG, também não é grande coisa. Maldonado acabou, Airton é muito limitado. Há, segundo versão do Renato Maurício Prado, 12 cabeças-de-área no elenco rubronegro, mas apenas 3 – Muralha, Luiz Antonio e Airton – teriam condições de disputar vaga num time da estatura do Flamengo. Praticamente não há armadores, já que tanto Renato quanto Kleberson e Ibson são mais “volantes que saem” do que propriamente jogadores que atuam em contato direto com os atacantes. Botinelli erra passes demais e parece ter dificuldade de trabalhar com Ronaldinho, talvez porque esteja acostumado a ter mais liderança sobre as equipes onde atua. Os únicos setores em bom nível são o gol e o ataque, este último prejudicado pela deficiente armação.

A busca por reforços não é animadora. O clube ficou tempo demais esperando por Juan e perdeu algumas boas revelações para a zaga, já contratadas por outras equipes. Perdeu um excelente zagueiro, Alex Silva , devido a uma atitude – brigar por seu salário – que Patrícia Amorim considerou ofensiva e imperdoável, enquanto engole cobras, sapos e lagartos que Ronaldinho Gaúcho lhe empurra pela goela todos os dias. A nova meta, Rafael Donato, do Bahia, é zagueiro bastante limitado, apesar da altura avantajada. Quanto a Juan, o clube não desiste e agora propõe sua troca por Thomas, uma das maiores promessas rubronegras, o que também não parece interessante.

Falando em Thomas, os jogadores da base vêm perdendo terreno com Joel Santana, que prefere esconder sua incompetência atrás de veteranos medalhões. Thomas, Adryan, Diego Maurício, Lorran, Lucas, apenas para citar alguns, são jogadores superiores à maioria dos atletas ora em atividade na equipe principal, e têm a vantagem de ser jovens criados no clube e com salários relativamente baixos.

Do elenco atual eu só aproveitaria os seguintes: Felipe, Léo Moura, González, Junior Cesar (*), Airton (*), Kleberson, Renato, Ibson, Bottinelli (*), Deivid e Wagner Love, observando que os marcados por asterisco são apenas “aceitáveis”. A eles seriam acrescentados as “pratas da casa” Paulo Victor, Marllon, Frauches, Victor Hugo, Luiz Antonio, Muralha, Camacho, Thomas, Adryan, Negueba, Diego Maurício e Lucas. Para as posições carentes, atletas em condições de assumir como titulares, e não essa lenga-lenga de “compor o elenco”. Para compor elenco já há muitos jovens na Gávea.

Pode ser que, com esse grupo, o Flamengo não tenha como almejar grandes feitos. Posso  garantir, contudo, que essa equipe não faria pior campanha que o bando atual e, ao menos, reduziria a sangria dos cofres rubronegros. Meu time, com o elenco atual? Felipe (Paulo Victor), Léo Moura, González, Airton e Junior Cesar; Luiz Antonio, Kleberson (Renato), Ibson e Camacho; Deivid e Wagner Love.

Por último, uma palavra sobre a direção técnica: tenho certeza de que o salário de Joel Santana (mais de R$ 300 mil, com certeza) é muito maior do que sua competência. Há bons técnicos no mercado, como Gilson Kleina e Jorginho (ex-Portuguesa), capazes de montar bons times mesmo com elencos limitados.

Talvez a questão crucial para o Flamengo, hoje, seja a ruptura com os “medalhões” e os velhos vícios do futebol, partindo para a ousadia e para a fórmula que nos deu, nos anos 70 e 80, uma das maiores equipes da história do Clube: veteranos de boa qualidade técnica e excelente nível profissional mesclados a jovens e promissores talentos.

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VAI COMEÇAR A MARATONA

Dentro de poucas horas começará mais uma edição do Campeonato Brasileiro, a décima desde a implantação do sistema de pontos corridos. O quê se pode esperar da competição?

Primeiro, a continuação da ausência de boa parte de seus maiores palcos. Maracanã, Mineirão e Fonte Nova ainda estão longe da conclusão. Isso afeta – e muito – o afluxo de torcedores, como se pode constatar pelas últimas bilheterias dos grandes clubes cariocas, em especial o Flamengo, cuja simbiose com o Estádio Mário Filho faz parte da mística rubronegra. Independência, Engenhão e Pituaçu, conquanto sejam bem montados estádios de porte médio, não têm o charme e o apelo histórico das grandes arenas hoje em reconstrução.

Da arbitragem também não se pode falar muito. A safra atual de árbitros parece um pouco mais bem preparada, mas se deve esperar a tradicional heterogeneidade de critérios que faz com que, por vezes, atletas e treinadores sejam expulsos e torcidas inteiras se revoltem. Quanto à segurança, apesar de estarmos a apenas dois anos da Copa 2014, me parece que as forças policiais se encontram tão despreparadas como sempre para garantir a incolumidade dos torcedores e de seus patrimônios. Mais do mesmo, portanto.

Onde as coisas parecem ter evoluído é nos gramados. A crise europeia e a valorização do real tornaram menor o fosso que separa o futebol brasileiro do do Velho Continente. As equipes se reforçaram e pouco  perderam – pelo menos até junho – de suas grandes estrelas. Isso garante uma competição de bom nível técnico e com várias equipes se apresentando, ao menos em teoria, como fortes candidatas.

De todas, creio que Corinthians, Internacional e Fluminense são as mais fortes, em especial pelo elenco de muito boa qualidade, condição indispensável para desbravar uma longa competição com 38 partidas. Justamente por terem bons times, mas não bons elencos, é que eu coloco Santos, Vasco e São Paulo num patamar inferior, embora com boas chances de disputar o título.

Outro grupo que merece ser observado é o que reúne Palmeiras e Grêmio. Os dois são equipes “à gaúcha”, com forte pegada e predominância do jogo coletivo. Mais abaixo eu colocaria Coritiba, Botafogo e Cruzeiro. O clube paranaense tem tradição de apresentar times muito compactos e é osso duro no Couto Pereira. Botafogo e Cruzeiro têm equipes bem razoáveis, mas perderam a intimidade com os grandes títulos, não sendo por outro motivo que a agremiação alvinegra vem sendo impiedosamente apelidada pelos rivais cariocas de “cavalo paraguaio”.

No grupo dos figurantes vejo Bahia, Sport, Náutico, Atlético-GO, Atlético-MG, Ponte Preta, Portuguesa e Figueirense. De todos, eu indicaria Bahia, Sport, Náutico, Figueirense e especialmente a Portuguesa como os mais fortes candidatos ao rebaixamento, com base na qualidade de suas equipes e no pouco que foi feito para reforçá-las. Em todo caso, só peru é que morre de véspera: às vezes um time tido por medíocre consegue desenvolver um bom padrão de jogo e chega muito mais longe do que a qualidade individual de seus atletas indicaria.

E o Flamengo? Como torcedor, prefiro analisá-lo à parte. Embora gravemente carente em algumas posições, em especial a zaga, o Mengão tem alguns jogadores de muito bom nível, o que o credenciaria a, pelo menos, almejar uma das vagas para a Copa Libertadores. Entretanto, o clube da Gávea vem se mostrando desorganizado desde os seus mais altos escalões, o que acaba por se refletir, inevitavelmente, sobre o rendimento do grupo de jogadores. Essa desorganização, quando adquire ares de leniência para com a disciplina e de tratamento diferenciado dos atletas, destrói a unidade que é indispensável ao sucesso de qualquer atividade desenvolvida em grupo.

Antes de Ronaldinho Gaúcho a diretoria rubronegra teve de engolir sucessivos sapos que Adriano lhes escorregava pela goela, até que conseguiu sua salvadora transferência para a Roma, em meados de 2010. O mau desempenho daquele que já foi eleito por duas vezes o melhor jogador do mundo tem muito mais a ver com a falta de uma política disciplinar (e financeira, por que não dizer?) clara para o Departamento de Futebol. Ronaldinho desafia técnicos e supervisores, aninhando-se sob as asas maternais de Patrícia Amorim toda vez que sua chapa começa a esquentar junto  àqueles. O restante do grupo digere mal a regalia e começa a dividir-se em “panelinhas” cujos integrantes, por vezes, sequer se cumprimentam.

O grande adversário do Flamengo, neste Brasileirão, não são as outras equipes, mas o próprio clube. Temo que Zinho esteja mais frito que uma sardinha de bar de praça Mauá antes do fim do primeiro turno, e que recomece a dança de técnicos que quase levou o Flamengo à série B em 2008 e 2010. Se Ronaldinho continuar a desfilar sua falta de profissionalismo e permanecer impune, a Magnética pode esperar meses de muita frustração e sofrimento.

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AINDA SOBRE AS QUOTAS

Num de meus últimos posts externei posição contrária às quotas para negros nas universidades. Para falar a verdade, sou em princípio contra todas essas chamadas “políticas afirmativas” que acabam por provocar distorções graves nas relações sociais. As minorias existem e devem ser respeitadas. Todos devem ter iguais oportunidades e cabe ao Estado zelar para que isso ocorra. Quando o mesmo Estado, entretanto, resolve dar um “empurrãozinho” em certos grupos, subvertendo as regras do jogo, então o sagrado princípio da isonomia, um dos pilares da ordem constitucional pátria, vai para o brejo.

Outro aspecto da mesma visão distorcida do problema da igualdade de oportunidades é a questão dos deficientes físicos ou mentais. É claro que defendo a acessibilidade, mecanismo através do qual os deficientes físicos podem ombrear-se às pessoas sãs. As iniciativas ora em curso nas esferas federal, estaduais e municipais demonstram que o Poder Público vem contribuindo para solucionar esse terrível problema, cabendo todavia à população – mesmo que sob o peso de sanções – respeitar as normas em prol dos menos favorecidos e seus direitos especiais.

Vejo também com grande simpatia as iniciativas que buscam integrar os deficientes mentais, especialmente os portadores da síndrome de Dawn, de maneira mais eficaz na atividade social. Não há motivo para que esses cidadãos sejam alijados do convívio escolar ou profissional, desde que tais ações sejam compatíveis com sua capacidade cognitiva e motora.

Por outro lado, outras medidas relacionadas aos deficientes me parecem claramente não-isonômicas: a principal delas é a fixação de quotas para deficientes nos concursos públicos. Diferentemente das empresas privadas, cujos métodos de seleção – desde que não firam a legislação – são de sua própria alçada, no setor público as contratações obedecem, por força de dispositivos constitucionais, a critérios de impessoalidade, transparência e publicidade.

O deficiente físico possui suas faculdades mentais plenas. Sua deficiência, em geral,  é apenas de ordem locomotora, auditiva ou visual. Ora, nenhuma dessas pessoas pode ser considerada, por razões vinculadas à sua deficiência,  inferiorizada  intelectualmente em relação aos demais candidatos de um concurso público. Dessa forma, a única regalia – se é que assim se pode chamar – a que deveriam ter direito seria a plena acessibilidade ao local do concurso e às facilidades a ele relacionadas, como sanitários, assentos e mesas  adequados, etc.

A definição de quotas de vagas para deficientes cria um “concurso paralelo” onde, embora os selecionados sejam os melhores de seu grupo, não o são obrigatoriamente em relação à massa de candidatos não portadores de deficiências. A contratação de profissionais que não sejam absolutamente os mais capacitados feriria, a meu ver, os princípios constitucionais estruturantes da atividade pública, além de afrontar o já mencionado princípio da isonomia.

Da mesma forma se devem encarar as deficiências de ordem mental. Elas são, em princípio, um impeditivo para a consecução de tarefas de alta complexidade ou que exijam apurada capacidade de avaliação e julgamento. Não deveriam, portanto, os portadores desse tipo de deficiência ser avaliados por critérios paternalistas. A absorção desses cidadãos em atividades profissionais adequadas pode ser feita não só através de programas específicos dos governos (mas não para cargos de provimento efetivo) como também de empresas privadas devidamente estimuladas por incentivos de ordem fiscal.

Não importa que os integrantes do  Supremo Tribunal Federal tenham julgado constitucional, por unanimidade, a prática das quotas raciais. Os argumentos em prol de uma “humanização” da Justiça, constantes de quase todos os votos, deixam bem claro que a seleção de magistrados para a Suprema Corte vem perdendo qualidade técnica e ganhando contornos mais e mais políticos. Se podem ser defensáveis do ponto de vista humanitário, leis estabelecendo privilégios para determinados grupos são não-isonômicas e, portanto, inconstitucionais. O resto é conversa fiada, mesmo que, aparentemente, do mais alto nível.

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CONSULTA AO ORÁCULO

Terminei há pouco a leitura de um artigo de J.R.Guzzo publicado em Veja desta semana, no qual ele comenta as possíveis consequências das eleições francesas (o artigo saiu antes de ocorrer o escrutínio). Segundo ele, pouca diferença fará se Sarkozy ou Hollande ganharem. Na França, como em geral nas principais nações europeias, as instituições estão acima dos políticos.

Na década de 80 – salvo engano – sucediam-se gabinetes na Itália. As crises políticas eram quase semanais. Ainda assim o país tocava sua vida, crescia e se modernizava com o simples e contínuo movimento de suas empresas, de seus trabalhadores e – por quê não reconhecer – de sua profissionalizada burocracia. Ou seja: a aparente turbulência política era apenas uma marola  a dar ares ameaçadores a um oceano perfeitamente estável  logo abaixo da crespa superfície.

Nações onde a ordem constitucional se encontra consolidada são mais resistentes às oscilações  político-partidárias. O Brasil, apesar  de todas as excrescências introduzidas em seu ordenamento jurídico por bondosas fadinhas travestidas de parlamentares, conseguiu colocar os dois pés no terreno firme das democracias maduras. Deve isso não aos petistas incendiários ou aos aproveitadores dos partidecos de aluguel, mas ao trabalho construído ao longo de uma década pelos governos que os antecederam (Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso).

É  lógico que a ação política ainda é capaz de provocar alguma instabilidade: apenas para registro, temos  o viés intervencionista e autárquico que parece ter contaminado a atual administração federal. No primeiro caso está a ação sobre certos preços, como os dos derivados de petróleo e do dinheiro, que melhor estariam se deixados ao sabor das forças de mercado. Intervenções como as que ora ocorrem deixam invariavelmente uma pesada fatura a ser paga com inflação, desabastecimento ou os dois.  Por seu turno, a estranha mania de querer moldar o perfil industrial brasileiro, incentivando a criação de grandes “zeibaren” caboclos, abre as portas para a política do toma-lá-dá-cá,  onde o que vale mesmo é estar entre os protegidos da política econômica, ainda que à custa de gordas contribuições de campanha.

Ainda assim, e a despeito de tudo, o Brasil vai trilhando seu caminho. Talvez não com a velocidade nem com a firmeza de rumo que deveria, mas, ainda assim, vai indo. As maiores reformas institucionais foram feitas no passado, embora ainda haja algumas outras, bastante importantes, por fazer. Estamos sobrevivendo.

O que dizer, entretanto, de um país como a Grécia? Lá, as eleições do último fim de semana podem trazer conseqüências imprevisíveis, com reflexos por todo o continente europeu e pelo resto do mundo. Os helenos têm sérias contas a ajustar com a austeridade fiscal e, embora com visível má vontade, haviam começado um processo de reformas bastante amplo. No entanto, os partidos de oposição, em especial os de extrema esquerda, conseguiram maioria – ainda que exígua – no Parlamento.

Cabe ao Nova Democracia, partido hoje no poder, tentar uma composição que lhe permita manter o comando do governo. Se falhar e todos os partidos de oposição acertarem um acordo,  a administração da crise grega mudará para mãos pouco dispostas a fazer ajustes.

As próximas semanas vão ser muito importantes para os europeus. Não se espera da França de François Hollande nenhuma bravata: talvez de modo um pouco diferente do de seu antecessor, Hollande deverá manter em linhas gerais os compromissos com a austeridade fiscal e a defesa do euro. E da Grécia, o quê esperar? Como reagirão os investidores? Poderá o euro sofrer ataques especulativos que obriguem o Banco Central Europeu (leia-se, hoje, Bundesbank) a novos desembolsos?

A esperança é  de que o Nova Democracia consiga se segurar, mesmo cedendo todos os anéis e talvez alguns dedos. Se isso não ocorrer, todavia, é melhor ir rapidamente a Delfos e procurar saber do oráculo o que fazer para se defender do provável agravamento da crise europeia.

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