A bomba detonada por Veja esta semana é daquelas que causam estragos amplos e duradouros. Talvez em outra ocasião o incidente passasse quase despercebido, com a tropa de choque petista se encarregando de espalhar a cortina de fumaça com a qual se acostumaram a encobrir todas as lambanças perpetradas. Agora, entretanto, a coisa é diferente: Lula não está mais no poder e a opinião pública está em estado de alerta graças à CPI que ele mesmo ajudou a construir.
A tentativa de cooptação de Gilmar Mendes – ministro nomeado por Fernando Henrique Cardoso – dá a cogitar que ela tenha sido precedida de outras abordagens a ministros, digamos, mais “chegados”. Toffoli, por exemplo, tem voto tão valioso quanto o de Mendes. Será que Lula já não teria ido procurar por ele? E Fux? E Levandowski?
Qual o papel de Nelson Jobim nesse enredo? O mesmo que Lula teria destinado a Sepúlveda Pertence, que, segundo a mesma reportagem, seria o encarregado de “convencer” a Ministra Carmen Lúcia? Acima de tudo, o que é que um cara como Gilmar Mendes, “p… velha” da advocacia, foi fazer numa reunião com Jobim e Lula, sabedor que era do desespero dos petistas com a aproximação da “hora da verdade” no caso do Mensalão? Será que ele achava que tudo se resumiria a “tomar uns bons drinque” ?
Algo não está se enquadrando, embora a história como um todo seja totalmente plausível. Só posso imaginar que, justamente por ser “p… velha”, Mendes tenha aceitado o convite apenas para ouvir, de modo formal e de viva voz, o convite obsceno feito por Lula. Assim, usaria sua posição para dar mais ênfase à denúncia de um processo que possivelmente já viria se desenvolvendo, com resultados até então animadores.
Seja como for, a iniciativa de Lula está completamente abortada. Os próprios ministros que eventualmente já tenham sido abordados vão ter de ser cautelosos, pois sabem que a sociedade os observa de perto. A lâmina da guilhotina vai se aproximando cada vez mais do pescoço de José Dirceu e sua gangue, com repercussões sequer imagináveis sobre a teia de corrupção que foi montada no país a partir de 2002.
As doações ostensivas de empreiteiras ao PT dão uma medida bastante clara do que deve estar correndo por baixo dos panos na administração pública brasileira. A CPI do Cachoeira, que Lula montou para encostar na parede seu desafeto Marconi Perillo e atrapalhar o andamento do Mensalão, pode acabar se voltando contra seus criadores, pois há indícios cada vez mais sólidos de que por trás da expansão incompreensível da Delta estão não somente o contraventor Cachoeira, mas especialmente o “Capo” José Dirceu. Caso seja conduzida com um mínimo de lisura, a CPMI pode contribuir para entender melhor o esquema que, desde tempos imemoriais, une empreiteiras e políticos no poder.
O melhor de todo esse episódio é que Lula, pela primeira vez, não tem o controle da máquina da propaganda estatal para mascarar seus malfeitos. Desta vez a opinião pública o pegou com as calças na mão. Ponto para Dilma Rousseff, que deve ter respirado aliviada quando Lula teve de tirar férias forçadas e afastou-se do seu ouvido. Dilma aproveitou esses meses para se consolidar e vem deixando cada vez mais claro que não quer ser o Medvedev desse Putin caboclo.
Realmente 2012 não vem sendo um grande ano para o Molusco. O julgamento do Mensalão se aproxima, a CPI está se tornando um tiro pela culatra e até o muppet que ele designou futuro prefeito de São Paulo escorrega na sua própria insignificância. Desta vez, a simples chancela do ex-presidente não está sendo suficiente para fazer decolar a candidatura de Fernando Haddad. Lula voltou da doença e percebeu que perdeu espaço. Está tentando recuperá-lo, mas vem errando a mão e, a cada movimento que faz, mais se afunda no lamaçal que ele mesmo criou.
